Blog do diretor do filme O milagre de Santa Luzia


O plano de Abertura by Bruno Garcia
- Trecho do livro Os Sertões de Euclides da Cunha 1

O velhinho na estrada

A única coisa que sempre esteve definido neste filme é o plano de abertura do filme.

Quando estive em Serrita, na época que conheci a história do Raimundo Jacó que conto no outro texto, acabei fazendo um plano de um velhinho que vinha andando pela estrada e vinha na minha direção. é um plano realmente muito bonito e acabei inclusive colocando-o no filme apesar de ter sido filmado com uma câmera muito pior do que a que utilizei no filme.

Ele vinha na minha direção e parou na minha frente com um cigarro apagado na boca.

- Trecho do livro Os Sertões de Euclides da Cunha

Tive um dialogo insólito com o tal senhor. Bem sertanejo. Poucas palavras.

Todo o seu depoimento foi com esse cigarro apagado. Sua face vincada de rugas pelo sol inclemente, era tal e qual o chão do sertão. O rosto fundo e ainda cego de um dos olhos o que o tornava ainda mais expressivo.

Nunca esqueci aquela imagem que me fazia pensar em algum filme antigo do Wim Wenders, como Paris Texas.

Quando decidimos fazer o filme eu só sabia de uma coisa. Queria aquele plano do velho com o Dominguinhos vindo pela estrada tocando Lamento Sertanejo. Viajamos quase dois dias atrás daquele lugar e eu tentando lembrar do ponto exato que tinha a configuração de subidas e descidas que eu lembrava e com o calor subindo pelo asfalto.

O local fica muito perto da divisa de Serrita com Exu.

Finalmente avistei o local e começamos a filmar.

Fizemos 3 planos. Dominguinhos viria pela estrada tocando lamento Sertanejo e tinha um ponto demarcado onde ele deveria parar. Ele tocou a mesma musica uma vez em 3, uma vez em 5 e uma vez em 7 minutos. Ou seja uma das coisas que começava a compreender sobre sua genialidade, é que ele jamais toca duas vezes a mesma música. Seu instinto criador e de improvisação recria a musica sempre.

Exu – Pernambuco

Quando íamos começar o segundo plano, surgem 4 garotos de bicicleta. Pedimos para eles esperarem e quando déssemos o ok eles entrariam em cena e passariam por tras do Dominguinhos e sumiriam no quadro.

Começamos, eles partem, de repente vaza o microfone do João Godoy que fazia a captação de áudio. Mando voltar correndo tudo pois perderiamos as bicicletas. Eles voltam e rodamos a cena. Quando sento pra assistir ao plano, observo que as bicicletas não estão presentes. A surpresa ainda estava por vir e tudo acontece de uma maneira muito mais bela do que eu jamais poderia imaginar. Pra saber assistam ao filme e todos poderão perceber a diferença da minha idéia e o que o acaso criou.

Deus dirigindo é bem mais criativo.



Os Vaqueiros by Bruno Garcia

Estamos a caminho de Exu pra fazermos o plano de abertura. Temos uma equipe bastante grande para os meus padrões que sempre foram de equipes de no maximo 3 pessoas. Neste caso temos algo em torno de 10 pessoas viajando juntas.
A minha sensação é de sempre ter estado viajando num carro muito ágil que se precisa pode virar em segundos 180 graus.
Aqui não. Tudo envolve mais dinheiro, mais pessoas e me sinto num navio que só faz curvas longas e abertas.
De qualquer forma estamos já próximos a Serrita, no final de tarde, quando avistamos um grupo de vaqueiros parado na beira da estrada. Eu estou na caminhonete com Dominguinhos e o resto da equipe está numa Van.
Peço pra Domiguinhos parar e já saio com a câmera. O Rinaldo que está fotografando em super 16 sai rápido. O João Godoy também. Vejo que fica uma expectativa na cabeça dos vaqueiros , já cheios de cana na cabeça, se aquele homem parado é Dominguinhos.

Vaqueiros

Pergunto se eles o conhecem , um deles diz que conhece e pergunta a Dominguinhos se ele ainda toca sanfona.
São homens vestidos com gibão e toda a parafernália exigida por um vaqueiro pra tocar o gado na catinga inclemente. Estão chegando de uma missa do vaqueiro, mas não a famosa em homenagem a Raimundo Jacó. Outra. Temos a nítida sensação de estarmos vivendo em outro tempo. Estes sertanejos viveram totalmente isolados do resto do Brasil até meados da década de 30. São homens rudes, marcados pelo clima hostil e por um tipo de vida bastante difícil no meio da catinga. A catinga não se parece com nada que possamos ter visto nas nossas vidas de sulistas. É um mato seco, espinhoso e muito denso. Andar a pé na catinga é difícil e estes homens andam com seus cavalos a galope por espaços que inexistem, fazendo movimentos improváveis. Alguns se cortam , outros passam lisos. Um destes homens visivelmente tem uma liderança sobre os demais. É um corcunda, que no meio da catinga, eu fui ver tempos depois, é o próprio Corisco.

Os vaqueiros

Este homem, repentinamente começa um aboio e todos nós permanecemos atônitos diante daquela cena que parecia estar saindo de plena idade média. Um outro, bastante embriagado responde ao aboio e os dois começam um diálogo musical falando do sertão, de Luiz Gonzaga, de Dominguinhos e da vida com uma voz que saía não se sabe de onde, com uma doçura incrível. Dominguinhos está observando com seu olhar tranqüilo. Estou gravando, O Rinaldo está filmando e todos tentam registrar o máximo possível daquele instante tão mágico. De repente ouço a sanfona de Dominguinhos. Ele havia pedido pra alguém busca-la no carro, põe seu chapéu de vaqueiro branco e começa a improvisar junto com o aboio.

Aos poucos a sanfona toma corpo e eu lá gravando aquilo tudo sem acreditar no que estava acontecendo. Numa felicidade de quem vê os milagres acontecerem. O milagre da música que conta tudo de um tempo sem nenhuma explicação.

Quem são aqueles homens ?

E para eles, quem éramos nós ?

Tanto faz. Nenhum deslumbramento, porque um homem desses jamais se deixa deslumbrar. Dominguinhos aos poucos se solta toca para eles, eles fumam e observam tranqüilos. Ao final todos tocam seus berrantes se despedindo, Dominguinhos fala “Fiquem com Deus”.

Voltamos para os nossos carros, agradecidos e partimos. Dominguinhos no carro comenta.. isso é a verdadeira arte. Nos encontramos e naturalmente tudo se fez… foi realmente inesquecível



o começo de tudo by sergioroizenblit
Francisco Jacó e sua mesa

Francisco Jacó e sua mesa

Esse blog, é destinado a levar pro mundo um pouco da experiencia de fazerum road movie com o Dominguinhos. Então eu vou tentar fazer uma espécie de diário a partir das memórias que rolaram durante as filmagens.

O surgimento do titulo do filme.
Eu, a Myriam Taubkin e a fotógrafa Angélica del Nery, saímos pelo Brasil pra preparar material pra série de espetáculos.
Estávamos em Exu, local do nascimento de Luiz Gonzaga.
Estamos eu e a Angélica de carro na estrada, quando vemos um senhor com uma mesa na cabeça.
corta pra um mês antes…
… eu estava em Serrita e comecei a conhecer a história de um vaqueiro mítico no sertão.

Seu nome: Raimundo Jacó.
Sua história: era conhecido como o maior vaqueiro do sertão. Um dia sai com outros vaqueiros e não volta. É descoberto morto, assassinado. O padre da região decide criar em sua homenagem a missa do vaqueiro. O patrono é Luis Gonzaga, primo de Raimundo Jacó, o principal personagem de serrita.

… corta pra estrada novamente, eu e a Angélica e o senhor com a mesa na cabeça e uma mula atrás de nome Bebeto.
Vamos conversar com ele, não consigo compreender quase que nenhuma palavra daquele senhor de cara judiada e quase sem dentes.
Estou desistindo e pergunto seu nome. Francisco Jacó. Pergunto se ele tem algum parentesco com Raimundo Jacó. Ele conta que é filho do Raimundo Jacó. Penso que deve ser um dos muitos filhos e ele conta que é o unico filho. Minha câmera treme, gaguejo. Estou diante do filho do maior mito do sertão, depois de Luiz Gonzaga. Pergunto sobre a mesa na cabeça dele, ele explica que está indo pra sua casa pra preparar uma novena pra Santa Luzia. Não acredito, estou diante do filho de Raimundo Jacó e numa novena de Santa Luzia dia 13 de dezembro, dia do nascimento de Luiz Gonzaga. Gravamos a Novena a noite, linda.
A casa muito humilde, tem uma parede inteira só com imagens de santos e outra parede inteira com fotos do Vasco da Gama.
A novena é uma promessa por um milagre acontecido com seu filho.

Seu nome: Raimundo Jacó.
Santa Luzia, a santa dos olhos, a padroeira dos que trabalham com os olhos, fotógrafos, cineastas.
A cena mesmo antiga e com uma qualidade menor está garantida no meu longa.
Quando fizemos os espetáculos, o show abria sempre com essa novena. o DVD do Brasil da Sanfona , idem. Foi muito bonito aquele evento recheado de coincidencias. Na época nem imaginava que o nome seria O Milagre de Santa Luzia, mas as vezes penso que a Santa sempre soube.



boas vindas by sergioroizenblit
14 de julho de 2009, 17:52
Filed under: Causos

Ola a todos,

estou estreando minhas atividades em um blog, portanto um pouco de paciência até o motor esquentar e poder disponibilizar algumas das histórias do filme.